FUTEBOL E POLÍTICA

        A maioria dos antifascistas espanhóis sente um ódio profundo contra o clube de futebol Real Madrid. Há várias razões para a origem de tal repulsa, como, por exemplo, o fato deste clube ter um passado muito ligado ao fascismo e ao ditador Franco. O Real Madrid era o time pelo qual Franco torcia, e durante toda a sua vida não só o ajudou financeiramente, mas também utilizou o aparato estatal, seu poder e influência, para ajudá-lo. Por outro lado, equipes como o Barcelona, Athletic de Bilbao e Rayo Vallecano tornaram-se símbolos da resistência anti-franquista. Estes clubes foram constantemente perseguidos e prejudicados pela ambição de Franco em tornar o Real Madrid o clube símbolo de toda a nação espanhola. No Barcelona, por exemplo, Franco mandou fuzilar um de seus presidentes, exigiu a mudança de seu nome catalão para o castelhano e fechou o seu campo com a justificativa de que a torcida gritava pela independência da Catalunha e vaiava o hino espanhol criado pela ditadura franquista. Não é à toa que o Barcelona sempre foi o maior rival do Real Madrid, e por sua grandiosidade e resistência o técnico Bobby Robson disse certa vez: “A Catalunha é um país e o Barça seu exército!”. Por outro lado, o Real Madrid tornou-se o símbolo de uma Madrid imperialista, fascista e monarca.

        Assim, passado 30 anos depois da morte de Franco e do estabelecimento da “democracia” burguesa na Espanha, o ódio dos antifascistas para com o prepotente Real Madrid continua o mesmo, ou ainda pior, já que hoje o Real Madrid trata o futebol como um negócio capitalista, sendo o maior clube-empresa de toda a Espanha, movendo bilhões de dólares na contratação de jogadores. Mas, além disso, o Real Madrid possui uma outra anomalia: uma odiada torcida organizada marcadamente nazista conhecida como “Ultras Sur” (apelidada ironicamente pelos antifascistas como “Ultras Subnormais”). Esta torcida aglutina em suas fileiras uma enorme quantidade de boneheads (nazistas travestidos de “skinheads”).


CRÔNICA ANTIFASCISTA DO QUE SE PASSOU NO ‘BAR LIEJA’

        A batalha campal protagonizada pela torcida fascista do Real Madrid (Ultras Sur) começou antes da partida entre Rayo Vallecano e Real Madrid, nas imediações do Estádio Teresa Rivero de Vallecas, em 6 de novembro de 2001. Nesta partida, cerca de 400 Ultras Sur foram conduzidos pela polícia desde a saída da estação do metrô, próxima ao campo do Rayo, até o estádio. No decorrer desse trajeto, mais de meia centena se descontrolaram e começaram a destroçar um bar com lançamentos de garrafas, pedras e paus, causando lesões a várias pessoas, em especial gravidade a um garçom de um bar que foi atingido na cabeça. A polícia, espantada com o ataque surpresa, preferiu proteger-se a tentar parar a agressão. Segundo os integrantes do “Ultras Sur”, eles apenas estavam respondendo aos ataques da torcida organizada do Rayo Vallecano: os Bukaneros (torcida marcadamente antifascista, politizada e de esquerda).

        Assim, programou-se uma manifestação antifascista às 22h, logo após a partida. Neste encontro, convocado por ultras de esquerda que nada tinham a ver com o Rayo, decidiu-se pelo enfrentamento direto contra os Ultras Sur. A manifestação foi controlada pelo grupo de Violência no Desporte da polícia nacional. Em represália, os Ultras Sur decidiram organizar um ataque bem-sucedido (pelo menos assim o imaginavam) contra o Bar Lieja, pois sabiam que ali era o reduto de todos os antifascistas, sobretudo punks e skinheads de esquerda, seu principal alvo. Um grupo de Ultras Sur dirigiu-se ao Bar Lieja armados com correntes, porretes e garrafas. Quatro nazis conseguiram entrar violentamente no bar. Mas, para a infelicidade dos nazistas, ocorreu o inesperado: os Ultras Sur tiveram uma triste surpresa, pois foram recebidos com escudos, bastões de beisebol, armas brancas e... uma série de garrafadas! Por incrível que pareça, havia aproximadamente cerca de 12 antifascistas dentro do Bar Lieja, número inferior se comparado com a quantidade de nazistas que havia fora do bar (cogita-se que havia cerca de 50 nazis ao todo). Entretanto, todos eles estavam prontos para o combate e munidos com as armas adequadas.

        A batalha foi intensa, os nazis foram expulsos do bar de todas as formas, principalmente na base de garrafadas e tacadas com bastões de beisebol. Muitos nazis caíam desmaiados e ensangüentados no chão do Bar Lieja. Não agüentando a pressão, os nazis saíram do bar, preferiram confrontar-se nas ruas. Houve um enfrentamento de garrafadas por vários minutos na entrada do local. Num dado momento em que as garrafadas cessaram, os nazis começaram a fugir até uma praça vizinha, onde também foram atacados por pessoas que ali se encontravam. Pouco depois, atacados por todos os lados, os nazis voltaram a correr, dirigindo-se a um parque repleto de policiais (que nada fizeram contra os fascistas). No final do conflito, dezenas de nazi-madridistas estavam com as cabeças abertas ao chão, seus feridos foram mais de dezessete, oito membros do grupo “Ultras Sur” acabaram na enfermaria, um deles com furos produzidos por uma arma branca.



NON SERVIUM EXPLICA O QUE SE PASSOU NO BAR LIEJA

Entre aqueles que protagonizaram a resistência do Bar Lieja estavam os integrantes e fãs da banda “NON SERVIUM”, os “NON SERVIUM ARMY” (N.S.A.). A defesa do Bar Lieja é retratada em uma de suas músicas, cujo nome se chama: “¿QUÉ PASÓ EN EL LIEJA?”. O NON SERVIUM é uma banda skinhead antifascista da Espanha que toca um Oi! bastante pesado com letras que misturam política, sarcasmo e irreverência.

O nome da banda também é bastante curioso, numa entrevista concedida ao RASH (Skinheads Comunistas e Anarquistas) de Madrid, datado de 14 de outubro do ano 2000, o grupo diz: “Em latim ‘NON SERVIUM’ quer dizer ‘NÃO TE SERVIREI’, e aparece na Bíblia quando Deus expulsa Lúcifer e demais anjos negros ao inferno por rebelar-se contra ele. Lúcifer lhe disse: NON SERVIUM. Evidentemente que o não servir concorda com o nosso estilo e com o estilo do Oi! e do Punk”.

Após a resistência antifascista do Bar Lieja, os nazis, envergonhados, tentaram se calar sobre o assunto e esquecer a histórica sova que levaram dos antifascistas. Alguns, sem sucesso, tentaram deturpar os fatos, distorcendo a realidade. Entretanto, os periódicos oficiais, fontes da Brigada de Informação da Polícia e a próprio jornal do Real Madrid (Marca) divulgou o ocorrido amplamente, destacando inclusive a furiosa violência dos Redskins contra os Ultras Sur (o artigo divulgado no Marca é datado de 23/05/2001 com o título: “Los ‘ultras’ del Madrid vuelven peligrosamente a las andadas”), sem falar no número de fascistas feridos e hospitalizados. Mas, sem sombra de dúvidas, o fato mais marcante é que mesmo numericamente superiores os fascistas ainda assim levaram uma surra histórica, e é por isso que o NON SERVIUM tenta recordar-lhes “amavelmente” este acontecimento (mesmo que os nazis sofram de “amnésia”!).



Abaixo segue a letra (traduzida):


---NON SERVIUM---

¿QUÉ PASÓ EN EL LIEJA?
(O que se passou no Lieja?)

CUANDO ALGUIEN CUENTA LO QUE LE INTERESA
(Quando alguém conta o que lhe interessa)
SE ABRE CAMINO A UN MUNDO ANORMAL
(abre-se caminho a um mundo anormal)
REALZANDO SUS PROEZAS, ENCUBRIENDO LA VERDAD
(realçando suas proezas, encobrindo a verdade)
CUENTAN HISTORIAS, BATALLAS VENCIDAS
(contam histórias, batalhas vencidas)
LLEVAN LA POSE DEL GANADOR
(levam a pose do ganhador)
PERO YA NADIE RECUERDA LO QUE AQUEL DIA PASÓ
(mas já ninguém recorda o que naquele dia se passou)

¿QUÉ PASO EN EL LIEJA? ¿PORQUÉ DE ESE DÍA NADIE QUIERE HABLAR?
(O que se passou no Lieja? Por que desse dia ninguém quer falar?)
¿CUÁL ES EL PROBLEMA? ¡HACED MEMORIA INTENTAD RECORDAR!
(Qual é o problema? Faça a memória tentar recordar!)

¿HASTA QUE PUNTO LLEGA EL CINISMO, QUE OS CORROMPE Y NO OS DEJA VER?
(Até que ponto chega o cinismo, que os corrompe e não os deixa ver?)
¿DÓNDE COÑO ESTA EL ORGULLO? ¿QUÉ SABRÉIS LO QUE ES VENCER?
(onde caralho está o orgulho? Sabereis o que é vencer?)
¿QUÉ PASO ESE DIA TRISTE DEL QUE NO QUEREIS HABLAR?
(O que se passou nesse dia triste do qual não queres falar?)
¿QUÉ PASO ESE DIA TRISTE QUE NO QUEREIS RECORDAR?
(O que se passou nesse dia triste que não queres recordar?)

¿QUÉ PASO EN EL LIEJA? ¿POR QUÉ DE ESE DÍA NADIE QUIERE HABLAR?
(O que se passou no Lieja? Por que desse dia ninguém quer falar?)
¿CUÁL ES EL PROBLEMA? ¡HACED MEMORIA INTENTAD RECORDAR!
(Qual é o problema? Faça a memória tentar recordar!)

HASTA QUÉ PUNTO LLEGA VUESTRO CINISMO
(Até que ponto chega vosso cinismo)
VUESTRA OBSESIÓN POR ENCUBRIR LA REALIDAD
(vossa obsessão por encobrir a realidade)
ABRE LOS OJOS Y MIRA EL DICCIONARIO, EL SIGNIFICADO DE LA SINCERIDAD
(abra os olhos e olhe no dicionário, o significado da sinceridade)
VUESTRAS MENTIRAS ESTÁN SIENDO DESTAPADAS
(vossas mentiras estão sendo descobertas)
YA TOCA FONDO VUESTRO MUNDO SURREAL
(já toca fundo vosso mundo surreal)
OS ENFRENTAIS AL PEOR DE LOS ENEMIGOS
(enfrentastes ao pior dos inimigos)
OS ENFRENTAIS A LA JODIDA REALIDAD
(enfrentastes a fodida realidade)

¿QUÉ PASO EN EL LIEJA? ¿POR QUÉ DE ESE DÍA NADIE QUIERE HABLAR?
(O que se passou no Lieja? Por que desse dia ninguém quer falar?)
¿CUÁL ES EL PROBLEMA?
(Qual é o problema?)

PERMITEME QUE TE REFRESQUE LA MEMORIA
(Permite-me que te refresque a memória)
MUCHAS PREGUNTAS A LAS QUE HAY QUE RESPONDER
(muitas perguntas vocês têm que responder)
VUESTROS HERIDOS FUERON MÁS DE DIECISIETE
(vossos feridos foram mais de dezessete)
¡Y NOSOTROS SEGUIMOS HOY EN PIE!
(e nós seguimos hoje em pé!)
EN LA CABEZA SIEMPRE QUEDA EN PIE EL ORGULLO
(na cabeça sempre fica em pé o orgulho)
PUES LA UNIDAD ES NUESTRA FORMA DE ACTUAR
(pois a unidade é nossa forma de atuar)
HOY SE NIVELA LA RUEDA DE LA BALANZA: ¡GANA 2-0 LA PUTA N.S.A.!
(hoje se nivela a roda da balança: ganha 2-0 a puta N.S.A.!)

¿QUÉ PASO EN EL LIEJA? ¿POR QUÉ DE ESE DÍA NADIE QUIERE HABLAR?
(O que se passou no Lieja? Por que desse dia ninguém quer falar?)
¿CUÁL ES EL PROBLEMA?
(Qual é o problema?)

SOMOS LOS QUE ESTAMOS, NUESTRA FUERZA ES LA AMISTAD
(Somos os que estamos, nossa força é a amizade)
LA UNIDAD ES NUESTRA FORMA DE ACTUAR
(a unidade é nossa forma de atuar)
NUESTRA ARMA, EL ORGULLO
(nossa arma, o orgulho)
NUESTRA LUCHA, LA DE CLASES
(nossa luta, a de classes)
NUESTRAS ZONAS SON LOS BARES Y LAS CALLES
(nossas zonas são os bares e as ruas)


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