A ORIGEM OPERÁRIA 

            "Um dos mais importantes exemplos da democratização e popularização do ´esporte bretão`no Brasil foi a fundação de um time vocacionado para a vitória, o FERROVIÁRIO ATLÉTICO CLUBE, cujo nascimento se deu pela ação de empregados da rede de Viação Cearense (RVC, depois Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima, RFFSA, atual Companhia Ferroviária do Nordeste, CFN).

            Em 1930, a RVC instalou oficinas de manutenção de locomotivas, carros e vagões na então distante região do Urubu, precisamente onde hoje se encontra a sede da CFN, na Avenida Francisco Sá - tal logradouro corresponde à antiga Estrada do Urubu, no período importante via de comunicação com a então distante Barra do Ceará, onde havia um hidroporto no qual pousavam hidroaviões trazendo destacados visitantes da cidade. À época, Fortaleza restringia-se praticamente ao seu centroFerroviário em 1938 histórico. Naquela área, ao longo dos anos, concentrou-se toda uma população humilde, na maioria fugida das secas, fome e latifúndios do sertão. Não foi coincidência que, no intuito de servir-se da mão-de-obra barata representada por essa população carente, instalaram-se na zona oeste da capital várias indústrias. Em conseqüência, ocorreu o aparecimento na região de inúmeras favelas, modestas residências, bairros operários, em geral menosprezados e esquecidos pelos poderes públicos.

            Com uma grande quantidade de tarefas e serviços para executar, em 1933 a direção da RVC determinou a realização de horas extras noturnas (das 18 às 20h) nas citadas oficinas do Urubu, visando assim recuperar mais locomotivas, carros e vagões. Encerrando-se o expediente normal às 16h25min, decidiram os operários mais jovens, sobretudo aqueles que moravam longe, aproveitarem o "intervalo forçado" para divertirem-se, passarem o tempo, jogarem "foot-ball". Cotizaram o dinheiro para a compra da bola e armados de pás e enxadas. limparam um terreno vazio dentro das oficinas, tirando matos, arrancando tocos, nivelando-o. Para completar a co
nstrução do campo, confeccionaram traves a partir de tubos retirados de caldeiras de velhas locomotivas.

Ferroviário em 1941            
Daí em diante, no finalzinho da tarde, tornou-se sagrado o "racha" entre os operários nas oficinas do Urubu. Para maior deleite, improvisaram até dois times, "Matapastos" e "Jurubeba", nomes de ervas, uma ´homenagem` irônica dos proletários aos matos que havia no terreno e que deram tanto trabalho na preparação do campo.

            Com o sucesso das "peladas", veio a feliz idéia de organizar "algo maior". Em reunião na casa do mecânico José Roque (o "Gordo"), os boleiros da RVC decidiram unir Matapastos e Jurubeba para formar um time de fato, capaz de jogar pela periferia nos finais de semana e até participar de campeonatos suburbanos. Dentro do óbvio, a equipe recebeu o nome de FERROVIÁRIO (...), por pouco não sendo chamado também de "ferrocarril", a exemplo de outros clubes sul-americanos oriundos de companhias férreas. Escolheu-se ainda um uniforme com listas verticais nas cores vermelho, preto Uniformes oficiais e branco (...)
            
            As "movimentações esportivas operárias" não passaram despercebidas a Valdemar Caracas, então influente chefe do escritório de manutenção da RVC e igualmente apaixonado por futebol. (...) Valdemar Caracas (...) se dispôs a organizar melhor a equipe nas horas vagas que tivesse. Reuniu os "atletas-trabalhadores" e, juntos, "refundaram" ou fundaram formalmente o Clube (...), o qual recebeu o "nome completo" de FERROVIÁRIO FOOT-BALL CLUB, denominação alterada anos depois, por sugestão de Caracas, para FERROVIÁRIO ATLÉTICO CLUBE. (...)" O time adotou como símbolo uma roda de trem transpassada por uma asa (ver foto acima), em uma clara referência aos trabalhadores ferroviários. As cores Ferroviário contra o racismo!vermelha, preta e branca foram mantidas, mas houve mudanças em relação ao uniforme, que passou a ser composto por camisa com várias listras horizontais. Na verdade, ao longo de sua história o Ferrão utilizou diversos modelos de uniformes, mas os que prevaleceram e que adquiriram o caráter de "oficial" foram aqueles adotados a partir de meados da década de 1940, inspirados nos ternos do São Paulo Futebol Clube. Essa mudança foi acompanhada de uma alteração do símbolo da agremiação, que passou a utilizar um escudo também baseado no do citado time paulista. 

            Nascia então, no dia 9 de maio de 1933, forjado pelos trabalhadores da RVC, o Ferroviário, para ser um orgulho do futebol brasileiro e da classe operária!

 


TIME DA ESQUERDA E DA LUTA DOS OPERÁRIOS

Logotipo da Rede Ferroviária Federal S. A."Os anos 60 foram conturbados para o Brasil. Em 1964, um golpe civil-militar depôs o presidente João Goulart, iniciando tenebrosa ditadura a qual se estendeu até 1985. O Regime Militar não deixou de refletir-se no futebol, usado para angariar simpatias e apoios populares. Não foi coincidência que, dentro da lógica "Brasil potência", "país do futuro", "Brasil ame-o ou deixe-o", inaugurou-se pelo país afora vários estádios de futebol, como o Castelão em 1973.

            A repressão, entretanto, era forte contra aqueles que ousavam questionar a ditadura. Há, inclusive, um fatoGreve dos ferroviários de 1962, em Fortaleza. interessante: muitos dos comunistas e pessoas militantes de esquerda das décadas de 1950/60 tinham preferencialmente o FERROVIÁRIO como o time do coração. Um dos mais fortes redutos do PCB-CE (Partido Comunista Brasileiro, secção Ceará) no meio sindical cearense estava na RVC/RFSSA, destacando-se ali a liderança do sindicalista Francisco Pereira da Silva, preso quando do golpe em 1964. Os ferroviários chegaram em 1° de abril a entrar em greve e tentar mobilizar a população contra a quartelada em Fortaleza - locomotivas foram mesmo sabotadas e vagões descarrilados! Vários trabalhadores da RVC/RFFSA foram detidos, humilhados e demitidos."

           Valdemar Cabral CaracasO envolvimento do FERRÃO com a política de esquerda iniciou-se, no entanto, há mais tempo. Devido seu prestígio junto aos trabalhadores da RVC, Valdemar Caracas foi eleito vereador de Fortaleza pelo extinto Partido Socialista, três anos após a fundação do FERROVIÁRIO. No ano seguinte, em 1937, Valdemar teve  seu mandato cassado pela então recém-instaurada ditadura varguista. Sobre o ocorrido, Caracas relata: 
"Fui eleito em 1936 e, em 1937, (o presidente) Getúlio Vargas deu o golpe que tomou meus direitos políticos. Não posso bater palmas ao Getúlio, ele fez justiça com as próprias mãos. Mas a grande maioria dos meus votos foi de operários, não foi de torcedores. Eu era líder da classe ferroviária. Mesmo assim, não foram muitos votos, foram cerca de cento e poucos. Naquele tempo havia poucos eleitores em Fortaleza. Perdi meu mandato no dia 10 de novembro de 1937, um dia depois do meu aniversário. O Getúlio comeu dois anos de minha vida."
Dez anos depois, em 1947, foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro no estado do Ceará.


Fontes: FARIAS, Airton de.FERROVIÁRIO: Nos Trilhos da Vitória. Fortaleza: Edições Livro Técnico, 2005.
  
        LUIS, Rafael. Valdemar Caracas: Vovô centenário. Jornal O POVO, Fortaleza, 29 out 2007. Páginas Azuis, p. 4-5.