Futebol e Anarquia

        

O que o anarquismo tem a ver com o futebol?

        À primeira vista nada. Mas olhando com cuidado, sem preconceito, tem muito a ver, sim! Eu acredito de “pés juntos” que foram os anarquistas que inventaram o futebol. Foram os anarco-primitivistas que criaram o futebol! Sério, foram eles! Definitivamente, o futebol é o esporte mais anárquico do planeta. Por sua alegria, irreverência, paixão, improviso, malandragem...

        Mas muitos vão falar que futebol é fanatismo, o ópio do povo... E com certeza é. Mas o futebol profissional. Dá asco saber que um jogador de futebol profissional recebe um rio de dinheiro, quando um trabalhador comum trabalha oito horas por dia para receber um salário mínimo. Além do mais, futebol hoje é um grande ninho de corrupção, lavação de dinheiro sujo. E outras cositas mais. Vejam os escândalo na CBF (Confederação Brasileira de Futebol), da Nike, na Fifa.

Contudo, futebol mesmo vai além de tudo isso. E eu vou “provar”. A primeira conexão de anarquismo e futebol é o “A NA BOLA”. Incrível, “A NA BOLA!”

Mas vamos definir melhor o perfil libertário do futebol. Eis:

A bola. Ela pode ser qualquer coisa redonda. Pode-se usar qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia, um coco, uma bola de meia, papel...
O uniforme. Joga-se do jeito que quiser. Descalço, com tênis... Até pelado!
As traves. Podem ser feitas com o material que estiver à mão: tijolos, gravetos, palitos de picolé, paralelepípedos, camisas emboladas, chinelos, os livros da escola...
O campo. Ele não é mais que um pedaço de rua, um quintal, uma praça, uma praia...
O piso. Pode ser de areia, pedregulho, asfalto, grama, cimento...
Tempo. Joga-se ao ar livre, com qualquer tempo, na chuva ou no sol!
Duração do jogo. Em geral, a partida pode virar com cinco gols e terminar com dez, ou três e seis. Quem fizer dois ganha e por aí vai...
A formação dos times. A formação de cada time varia, de 2 a 15. Pode–se misturar no mesmo time homens e mulheres, idades...
Tática. Não tem. Tudo é espontâneo. Fora à rigidez do futebol profissional!
Juiz. Futebol mesmo não tem. Apita-se por consenso!
Substituições. É livre!
Penalidades. Só se o jogador quebrar as pernas.
Justiça desportiva. Os casos de litígio são resolvidos na hora, na porrada!
Dribles. São livres, espontâneos. Brota da criatividade de cada um.

E aí, você não acha que existe uma ligação “primitiva” do futebol com o anarquismo?

 

Anarquistas e Comunistas

        Tem mais. Os anarquistas juntamente com os comunistas foram os principais divulgadores do futebol no Brasil, e em outros países também. No Brasil, especificamente em São Paulo, o futebol foi introduzido em 1894, pelo paulista Charles Miller, que teria voltado da Inglaterra nesse ano, com duas bolas e uniformes para os 22 jogadores. Um estudo recente mostra que o esporte já era praticado no Brasil alguns anos antes. Era um esporte da elite. Só os burgueses das grandes companhias inglesas e a alta nata paulista o praticava. Todo o material necessário à sua prática era importado das melhores lojas inglesas. As partidas eram assistidas por homens vestidos de ternos e gravatas, senhoras elegantes, moças e rapazes de “boas famílias”, que iam torcer por seus filhos, irmãos, primos, amigos.

        Porém, lentamente o futebol foi ganhando adeptos não apenas entre os burgueses. Mas entre as camadas pobres da população, principalmente entre os operários. Como era de fácil assimilação e improviso, o futebol se transformou em divertimento preferido dos meninos descalços dos bairros operários de São Paulo. Era tudo muito anárquico. A molecada jogava futebol nas ruas, praças, calçadas, quintais, escolas... Os campos de futebol se alastraram por toda a cidade. Era o futebol de várzea, de rua!

        Com o futebol ganhando fôlego, as empresas e industrias paulistas começaram a criar seus clubes. Na década de 20 era difícil apontar uma indústria que não tivesse um time de futebol. Formou-se uma tradição operária de futebol amador praticado em clubes de fábrica, em geral criado pelos próprios trabalhadores. O futebol já fazia parte do cotidiano das pessoas menos favorecidas.

        Mas aí, como os anarquistas e comunistas tinham uma forte inserção entre o operariado da época, começaram a torcer o nariz para o esporte bretão. Chamavam-no de esporte burguês; apontavam os efeitos maléficos dos clubes de fábrica, chamavam de poderoso ópio do povo capaz de minar a união e a organização da classe, que enfraquecia e desvirtuava a luta, que a prática do futebol, principalmente nos clubes de fábrica, levava os trabalhadores a defender o nome da empresa, separando-os e colocando-os em confronto. Apesar da crítica dos anarquistas e comunistas, o esporte crescia entre os trabalhadores. Não dava pra segurar.

        O jornal A Plebe, de cunho anarquista, de 28 de janeiro de 1933, dizia:
“Atualmente, são três os meios infalíveis que os ricos exploradores das misérias e necessidades do povo empregam para tornar a classe operária uma massa bruta: o esporte, o padre e a política. Não existe nenhuma vila ou aglomerado de casas de operários que não tenha o campo de futebol, a igreja e os gorjetados incitadores políticos. Nos campos de futebol, os operários de ambos os sexos tornam-se aficionados e torcedores e brutaliza-se a ponto de só viverem discutindo entre os seus companheiros os lances e proezas dos campeões”. E a crítica ia longe, muito longe.

        Mas logo, anarquistas e comunistas, deram o “braço a torcer”. Ao invés de simplesmente só criticar o esporte, começaram a organizar o futebol, organizá-lo como lazer, se contrapondo à “cultura burguesa do futebol”. Propunham uma espécie de auto-gestão do futebol pelos trabalhadores. Era a “proletarização do esporte”. O jornal O Trabalhador Gráfico, de 25 de maio de 1928, dizia:
A necessidade do esporte para a juventude é um fato incontestável. A burguesia se aproveita desse fato para canalizar todos os jovens das fábricas para os seus clubes. Que fazem os jovens nos clubes burgueses? Defendem as cores desses clubes. Se o clube é de uma fábrica é o nome e a cor da fábrica que defendem; a burguesia cultiva neles a paixão e a luta contra a juventude das outras empresas. Todo operário footballer deve ingressar nos clubes proletários. No mundo obreiro ninguém mais ignora que o esporte bretão tem sido útil ao capitalismo para desviar a atenção das massas trabalhadoras dos seus sindicatos profissionais”.

        O jornal Nossa Voz, de 1 de julho de 1934, por sua vez comentava:
Trabalhadores que somos, organizaremos os nossos clubes, as nossas ligas, feitos e dirigidos por nós mesmos, sem interesses de dinheiro, mas só animados pelo espírito de solidariedade proletária”.

        Mas o pau entre anarquistas e comunistas corria solto. Nem tudo eram flores. Os anarquistas diziam que as atividades recreativas deveriam ter sempre um fim educativo. Criticavam os comunistas por terem, na tentativa de promover o esporte, transformado sindicatos com longa tradição de lutas em meros centros esportivos e dançantes. Embora anarquistas e comunistas fossem relutantes em aceitar a prática do futebol, acabaram por reconhecerem que a popularização do jogo era inevitável. É certo que anarquistas e comunistas tiveram participação importante na popularização do futebol, principalmente entre os trabalhadores.

 

Curiosidades

        Pouca gente sabe, mas um dos primeiros clubes do Brasil foi criado em Santos (cidade portuária que foi a porta de entrada de muitos anarquistas), lá no início do século, por imigrantes europeus. Não sei se foram imigrantes anarquistas. Mas o nome do time era Libertários Futebol Clube, e suas cores vermelhas e negras. Era um dos melhores times de várzea de Santos. Recentemente dei um pulo na sua sede, que ainda existe e consta o nome do clube numa placa, no bairro do Campo Grande, para tentar levantar a história dele. Mas por desgraça, o clube havia sido arrendado para uma associação de crianças carentes. Não tinha ninguém que podia me passar informações mais detalhadas. Porém, fiquei sabendo com um funcionário da associação, que ainda existe um senhor vivo, o “seu Silvio”, ex-sócio do clube (a maioria morreu), com muita documentação e histórias para contar do Libertários F.C. Se um dia eu tiver gana, vou atrás deste “seu Silvio”.

        Dias atrás, fiz uma rápida pesquisa na lista de telefones da Baixada Santista. Fui procurar os clubes/times que se chamavam Primeiro de Maio. Louco, mas tinha mais de 15! E acho que o número é bem maior, se formos contabilizar os times de várzea com esse nome.

 

Mais curiosidades

        Na Argentina, alguns jogadores anarquistas que pertenciam a FORA, chegaram a vestir a camisa da seleção portenha. Na Argentina, a história do futebol é muito parecida com a do Brasil. Lá, surgiram clubes “barriales” criados por socialistas e anarquistas. Por exemplo, o “Clube Mártires de Chicago”, em homenagem aos operários enforcados nos Estados Unidos por lutarem pela jornada de oito horas de trabalho. Foi o núcleo que anos depois passou a ser chamar o hoje conhecido “Argentino Juniors”. Também o clube “Porvenir” teve a mão dos utopistas. O “Chacarita Juniors” nasceu numa biblioteca libertária num Primeiro de Maio, em 1906. Com camisetas vermelhas, negras e brancas O “Newell’s Old Boys, foi fundado em homenagem a Newell, que era anarquista. A camisa do NOB é vermelha e negra. O time “Nueva Chicago”, usava um uniforme verde e negro.

        Na Croácia, existia, ou existe, não sei ao certo, um clube fundado por anarquistas, se chamava “Anarco”. E tem muitas histórias de clubes que fizeram resistência ao fascismo. Como o “Dínamo de Kiev”, que morreram fuzilados pelos nazistas por haver vencido a seleção do III Reich, apesar de que haviam sido advertidos que deveriam perder. Linda essa história! Viva o futebol! Abaixo o nazismo!

        Tem mais, equipes como o Barcelona e o Atlético de Bilbao foram símbolos de resistência anti-franquista. No Maio de 68, os jovens revolucionários do “Footballer’s Action Committe” ocuparam a Federação Francesa de Futebol, e leram um manifesto muito atual com criticas a profissionalização do futebol, e a rigidez dos técnicos, cartolas. Enfim, tem muitas histórias, basta correr atrás!

 

Atualidade

        De uns tempos para cá, os anarquistas voltaram a retomar para si o futebol, como diversão, jogo lúdico. Em Seattle, nos protestos anti-globalização, anarquistas organizaram partidas de futebol no meio da rua contra o capital. Foi daí que ganhou fôlego à “Associação Anarquista de Futebol”, dos EUA. Na mesma época, no “May Day 2000”, ocorreu uma partida de futebol de rua entre os Zapatistas e o “Reclaim The Streets”. Sete anos atrás, a “London Psychogeoographic Association”, organizou o “Glasgow Anarchist Summer School”, onde propunham o “3-sided football”.

        Na copa da França de 98, a canção símbolo do mundial de futebol era “Thumbthumping”, do grupo anarquista Chumbawamba. Aliás, os “Chumba” adoram futebol. Na sua página na Internet tem vários textos interessantes sobre futebol. Além de links para associações de torcedores, nomeadamente skins libertários, que combatem o racismo no futebol inglês. Na Europa, são inúmeras as torcidas organizadas por skins antifascistas, libertários. Os chamados “Ultras”. Quase todos os skins são futeboleiros. Existem até times de futebol só de skins, na Inglaterra. Na Dinamarca, em Copenhagem, existe o “Cristiania Esporte Clube”, que é o time da cidade livre de Cristiania. O uniforme dos caras é muito feio, azul e amarelo! Eles disputam a segunda divisão do futebol dinamarquês.

        Um tempinho atrás, numa conversa com um skin libertário mexicano, ele me dizia: “dentro de algumas semanas, vários skins e punks, irão ao Estádio três de Março, onde jogam os Tecos, a equipe de uma universidade ultradireitista e anticomunista, bastante fascista. Nossa equipe, o Atlas, vai jogar contra eles. E ali iremos apoiar nosso time vermelho e negro, e realizar propaganda antifascista”. Ele continua, “o escudo do nosso time é da cor vermelha e negra, e leva um ”A” branco no meio. É bem anarquista! Há alguns anos pertencíamos a uma torcida chamada “Forza Rojinegra”, mas já desapareceu. Quando fazemos trabalho político dentro do estádio, usamos o nome de “Brigadas Rojinegra”. Sacamos folhetos e levamos faixas com mensagens políticas. Outros skins antifascistas no México apóiam outras equipes. Por exemplo, os camaradas do RASH-Distrito Federal apóiam os Pumas da UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México); outros skins do Distrito Federal apóiam o Cruz Azul, um time que nasceu de uma cooperativa de cimento; na cidade de Monterrey, no norte do país, os skins apóiam os Tigres, participando de uma torcida chamada “Locos y Libres”; na região da Baixa Califórnia, os skins apóiam o Nacional Tijuana. Todas as equipes são da Primeira Divisão, exceto o Nacional, que é da Primeira A.

 

Depoimento pessoal

        Há mais ou menos 20 anos atrás, quando iniciei minha caminhada libertária, era um jovenzinho, louco por futebol. Acordava e dormia futebol! Freqüentava estádios, colecionava álbuns de figurinhas dos craques... E modéstia à parte, era bom de bola. Cheguei a jogar nas categorias de base do Santos. Mas o coração anarquista bateu mais alto e “resolvi” desistir dessa “carreira”. E cair de corpo e alma no universo libertário. O futebol perdeu um “craque”, mas o anarquismo ganhou um “perna-de-pau”.

        O curioso é que na época eu escondia dos “compas” esse sentimento futeboleiro. Sentia vergonha de dizer que era apaixonado por futebol, que jogava futebol. Naquela época, ao meu ver, os anarquistas eram muitos “certinhos”, moralistas... Na verdade chatos. Principalmente os punks. Rolava muito policiamento. Recentemente que eu vim a mudar, a assumir esse lado futeboleiro, depois de fazer algumas reflexões sobre futebol e anarquia, de investigar as origens do meu time, o Vasco da Gama, pioneiro no combate ao racismo no futebol brasileiro.

        Acho que é isso, esse tema dá um bom livro. Alguém se habilita a escrevê-lo?

        Ah, esse texto vai em homenagem a jovem Keila Sgobi, goleira do time da sua faculdade. Ao Renato do CELIP, fanático torcedor do Fluminense. E ao Allyson, outro fanático do torcedor do Ceará. Todos anarquistas!

 

Viva o futebol de rua! Viva a Anarquia!

 

Retirado de um artigo do CMI