A História Radical do Futebol
artigo original (online, em inglês): The Radical History of Football

Por "Do or Die"

 

Futebol tradicional em Alnwick, Inglaterra.

        Uma resposta simples à pergunta "porque nós jogamos e assistimos ao futebol?" é que ele é divertido. Desmond Morris sugere que o futebol substitui a diversão da caça em grupo que era parte importante da vida humana no passado. Ele escreve: “Observado desta forma, o jogo de futebol se torna uma caçada recíproca. Cada time de jogadores, ou “grupo de caçadores”, tenta marcar um gol mirando a bola, ou “arma”, contra um gol ou “presa”... A essência do padrão de caça ancestral é que esta envolvia muito exercício físico, combinando risco e excitação. Ela envolvia uma seqüência longa que se intensificava, misturava estratégia e planejamento com habilidade e audácia, e culminava no clímax do triunfo. Esta descrição se encaixa bem nas atividades de um jogador de futebol, mas é completamente distinta do estilo de vida de um trabalhador numa fábrica ou de um empregado num escritório.”[1]

        Outros arriscaram o palpite de que a primeira bola era a cabeça de um inimigo morto no campo de batalha, e há a sugestão religiosa e pouco provável no tratado de 12 volumes O Livro do Futebol, publicado em 1905, de que o jogo começou no Jardim do Éden, com Caim e Abel chutando a maçã pra lá e pra cá em 5000 a.C.[2] Mas uma noção que não pode ser deixada de lado é a de que o futebol se desenvolveu a partir de rituais religiosos pagãos. Esta evidência não está confinada à Grã-Bretanha (que é o foco do presente artigo, simplesmente pela maior quantidade de informação disponível), mas tem uma natureza universal que sugere origens muito antigas na história humana. Por exemplo, na China de 500 a.C., as pessoas jogavam um tipo de futebol chamado "tsu chu".[3] Seiscentos anos após, o escritor chinês Li Yu (50-130 d.C.) escreveu este elogio ao jogo local, destinado a ser pendurado nas traves do gol:

“Uma bola redonda e um gol quadrado

Sugerem o formato do Yin e do Yang.

A bola é como a lua cheia

E os dois times se confrontam”.[4]

 

         Em outros lugares, os gregos antigos tinham o episkyros e os romanos o harpastum; ambos jogos de bola jogados com dois times.[5]

 

Um jogo de dois lados

        As primeiras peladas da Grã-Bretanha foram jogadas por imensas multidões em largas várzeas de rio e respeitando pouquíssimas regras. Vilarejos eram divididos em dois lados, geralmente de acordo com o lugar em que cada um vivia. Os jogos geralmente eram ligados a datas especiais e algumas dessas tradições sobreviveram até hoje. Por exemplo, no 1º de janeiro em Kirkwall, Orkney, o futebol de rua começa às 10:00 da manhã todos os anos. Há o jogo do Hocktide (primeiro domingo depois da páscoa) em Workington, Cumbria, e em julho há a “semana de Reivers” em Duns, Borders, onde o jogo de “ba” é entre os casados e os solteiros da cidade. Mas o maior dia do ano para o futebol tradicional na Grã-Bretanha é a terça-feira de carnaval (Shrove Tuesday). Por volta de 50 tradições locais deste tipo são conhecidas, embora apenas 6 ainda existam hoje em dia.[6]

        Uma delas acontece em Sedgefield, County Durham, onde à 1:00 da tarde, uma bola é passada por um pequeno anel, conhecido como o Anel do Touro, no campo da cidade. Ela então é atirada a uma multidão exaltada de até 1.000 jogadores. A várzea de 500 metros – um velho lago e um córrego – fica entre os dois gols, e o grande jogo se completa com seu próprio hino tradicional: 

“Quando as panquecas forem cheias,

Venha ao anel e você achará seu par,

Lá esta bola será lançada ao alto,

Que este jogo seja melhor que o outro”.

 

        Um outro jogo famoso acontece em Ashbourne, Derbyshire. Os “de cima”, nascidos de um lado do rio Henmore, enfrentam os “de baixo”, nascidos do outro lado. Os gols estão separados por 5 quilômetros, com vários córregos entre eles, o que torna difícil marcar um gol nos primeiros minutos da partida.

        Existem outras partidas em Atherstone, Warwickshire, em Alnwick, Northumberland, em Corfe Castle, Dorset, e em St. Columb, Cornwall. Embora estritamente falando, o último seja mais um jogo de arremesso do que exatamente futebol, vale a pena mencioná-lo por ter o ritual mais escancaradamente pagão. Uma bola de prata é mergulhada em barris de cerveja para fazer “cerveja de prata”, o que sugere fortemente uma cerimônia lunar... (A gente estava na lua, cara).

        Então por que o futebol ocorre na terça-feira de carnaval (Shrove Tuesday)? Hoje apenas uma desculpa para se empanturrar de panquecas, este era um importante festival de primavera pré-cristão, relacionado ao Equinócio (Páscoa) e o último dia de Carnaval (Mardi Gras). O elemento futebolístico certamente se encaixa no clima de anarquia da ocasião – no Oeste da Grã-Bretanha, a noite anterior era chamada de Noite de Nickanan, quando molecagens e vandalismo abundavam. Podemos chutar também que a forma da bola pode ser relacionada ao tema dos ovos e da fertilidade que estão por trás desses rituais de primavera.

        Janet e Colin Bord dizem que o futebol tradicional está ligado a negócios hippies esquisitos, como produção de energia: “Nós já sugerimos que muitos costumes envolvendo dança (por exemplo, dança de Morris, dança de maio, dança em volta de fogueiras) e pulos podem haver tido o objetivo de aumentar a energia e esta idéia pode ser extendida aos jogos turbulentos e arruaceiros que também são parte da tradição britânica”. Eles citam Mircea Eliade, em Padrões de Religião Comparada, dizendo: “A competição e as lutas que tomam lugar em tantos lugares na primavera ou na época da colheita com certeza vêm da noção primitiva de que competições, jogos violentos entre os sexos e coisas do gênero servem para misturar e aumentar as energias de todo o universo”. E os Bords adicionam: “Os costumes podem se tornar mais claros se nós os descrevermos como rituais mágicos que pretendem aumentar a energia, que é direcionada ao objetivo desejado, que geralmente é a reprodução da colheita, do gado, das pessoas e o bem-estar da terra. Quando esses rituais mágicos são realizados em lugares pré-históricos, estes próprios também fonte de energia, então os rituais estão adicionando às energias presentes no lugar e disponíveis para o uso”. Eles dizem que existem fortes ligações entre esses lugares antigos e especiais – os “campos sagrados” – e redes de energia: “Jeremy Harte já notou que o jogo de futebol da terça feira de carnaval em Alnwick acontece na rua principal, a A1068, que se alinha com uma igreja e uma abadia, enquanto que a igreja Eglingham, parte da estrada A351 no Castelo de Corfe, Dorset, onde outro futebol de terça feira de Carnaval é jogado, se alinha com o castelo e um cemitério”.[7]

Futebol tradicional em Barnet

        Podemos dizer que em outro evento de terça-feira de carnaval sobrevivente, em Atherstone, a estrada principal também é parte importante do negócio.[8] Os leitores podem querer reviver a tradição na sua linha de energia local/estrada, e não esqueça de trazer alguns tripés. Lugares antigos ou não, o mesmo efeito energizador era evidente na versão do futebol que continuou a tradição nos vilarejos e cidades da idade média. Entre 1170 e 1183, William Fitz Stephen, biógrafo de Thomas A. Becket, escreveu em Londres: “Depois do jantar toda a juventude da cidade vai aos campos para o popular jogo de bola”. Ele disse que os anciãos iam assistir e “parece que um calor natural é remexido e volta à tona nesses velhos, ao ver tanta atividade e por participar das alegrias da juventude sem entraves”.[9]

        Mas energia não era necessariamente uma coisa boa numa sociedade onde passividade, conformidade e obediência à autoridade se tornavam mais e mais exigidas, ao longo do processo de urbanização. Escreve James Walwin, um historiador do futebol: “Longe de se importar com os ferimentos dos jogadores, os observadores medievais estavam mais preocupados pela agitação social causada pelo futebol. O jogo era apenas uma competição mal definida entre multidões indeterminadas de jovens, freqüentemente jogada de uma maneira tumultuosa, em estreitas ruas da cidade, produzindo algazarra e danos à propriedade... Era, em suma, um jogo que de vez em quando chegava perigosamente perto de testar os limites do controle social dos governos locais e nacionais”.[10]

 


600 Anos Gloriosos de Fúria Bestial e Violência Extrema

        Dos tempos medievais até o século 19, o futebol lutou contra várias tentativas de suprimi-lo. Ocasiões dignas de nota incluíram:

1287: O sínodo de Exeter baniu “esportes inadequados” dos jardins das igrejas.[11]

1314: Os ministros de Eduardo II proclamaram que “já que há muito barulho na cidade causado por disputas envolvendo grandes bolas, das quais muitos males provêm, os quais Deus proíbe, nós ordenamos e proibimos, em nome do Rei, sob pena de prisão, que tal jogo venha a acontecer na cidade no futuro”.[12]

1349: Eduardo III repete a proibição, descrevendo o futebol como um dos muitos “jogos imbecis e sem utilidade”. Novos decretos contra o futebol se seguem em 1389 e 1401.[13]

1531: Sir Thomas Elyot escreve em seu tratado O Rapaz Nomeou O Governador que o futebol “não é nada mais do que fúria bestial e violência extrema”.[14]

1555: O futebol é banido da Universidade de Oxford.[15]

1572: Elizabeth decreta que “Nenhum jogo de futebol será usado ou sofrido dentro da cidade de Londres”.[16]

1576: Um grupo de artesãos em Ruislip “com um número desconhecido de malfeitores da ordem de cem pessoas, se encontraram e jogaram ilegalmente um jogo ilegal, chamado futebol, o qual originou um grande tumulto, do tipo que resulta em homicídios e acidentes graves”.[17]

1608-9: Observa-se em Manchester “um grupo de pessoas obscenas e inquietas ilegalmente jogando com o futebol nas ruas da mencionada cidade quebrando várias janelas e vidros...”. [18]

1615: Diz-se que o futebol está causando "grandes desordens e tumultos" na cidade de Londres.[19]1600s: “Em vários aspectos o Puritanismo desse período se tornou um grande inimigo dos esportes, especialmente da variedade popular e violenta, e ainda mais do que o monasticismo medieval havia sido, e a história do esporte na Inglaterra puritana pode ser escrita baseando-se principalmente nas freqüentes proibições praticadas contra ele”.[20] O panfletário puritano Philip Stubbes escreve que o futebol é mais “uma prática homicida do que o esporte fraternal do passado”. [21]

1660: Alega-se que um estudante da Universidade de Cambridge “estava num grupo que tumultuosamente atirou panos ou pedras no vice-reitor e nos professores que tentavam impedir os estudantes de jogar futebol, e fazer outras reuniões ilegais.” [22]

1796: Depois da morte de um homem no jogo de terça-feira de carnaval em Derby, o futebol é condenado como “uma desgraça para a humanidade e civilização, subversivo da boa ordem e governo e destruidor da moral, propriedade e da própria vida de nossos habitantes.” [23]

1830s: “Já se foi o tempo em que as autoridades ficavam impotentes enquanto os seus súditos tomavam a lei em suas próprias mãos com impunidade; na capital, por exemplo, bandos de jogadores de futebol se tornaram incapazes de criar desordem à vontade. O futebol de rua do passado foi uma das vítimas do império da lei”.[24]

1838: “O futebol praticamente caiu fora de uso com o cercamento das terras comunais, pois requer amplos terrenos para sua prática”.[25]

1881: Evard Home Coleman registra: “O costume ancestral de jogar futebol nas vias públicas foi observado em Nuneaton na tarde de primeiro de março. Durante a manhã alguns trabalhadores anunciaram o acontecimento pela cidade e entre uma e duas horas da tarde o jogo começou, centenas de elementos se reunindo e chutando a bola através das ruas. A polícia tentou parar o jogo, mas foi rudemente tratada”.[26]

 

Desacreditando o Jogo

        Tumultos urbanos, insubordinação à lei, autoridades em pânico – tudo isso soa como o tipo de coisa que precede uma revolução. Mas será que existia qualquer base real de radicalismo na tradição do futebol? Certamente, nem todos os radicais concordaram com isso, ao longo desses anos. Por exemplo, os grevistas sindicalizados em Derby, 1833-34 consideravam o jogo local como uma “temeridade bárbara e loucura absoluta”, promovida pela elite local como distração e des-radicalização.[27] Por outro lado, como James Walwin bem lembrou: “O futebol, com seus times selvagens e sua violência, como vários fenômenos aparentemente apolíticos e inocentes, pode facilmente se tornar a fagulha de um distúrbio mais grave”.[28] Os historiadores adicionam: “O jogo apela primariamente aos homens jovens e sadios, cujo vigor e rudeza coletiva não pode ser facilmente contida por uma sociedade que carecia de forças policiais eficazes ou agentes de controle social similares. Em Londres, por exemplo, os aprendizes – grupos radicais tradicionais, sempre prontos para testar a força dos governos locais e nacional – eram freqüentemente a causa principal de incidentes futebolísticos”. Esses aprendizes “eram uma ameaça constante de insubordinação e muitas vezes de agitação radical”, diz Walwin.



O futebol tradicional jogado no mercado de Kingston.

De fato, em várias ocasiões nos séculos 17 e 18, o futebol tomou parte em acontecimentos claramente políticos. Em 1638 em Lilleport e Ely, um jogo de futebol foi organizado deliberadamente para atrair uma multidão e desfazer uma barragem construída para drenar os pântanos locais. Em 1647, em oposição ao miserável puritanismo e à crescente centralização da autoridade, uma multidão em Canterbury fechou todas as lojas que haviam obedecido a ordem de abrir para o natal. Eles passaram então a oferecer bebida gratuita para todos, jogaram cocô no pastor presbiteriano e soltaram os presos da cadeia municipal. Quando o prefeito foi posto para correr junto com seus oficiais, a multidão iniciou partidas de futebol e alguns soldados republicanos conscritos desertaram e se juntaram à festa.

        Em 1740, “uma partida de futebol foi jogada em Kettering com 500 homens de cada lado, mas o objetivo era destruir o engenho de Lady Betey Jesmaine”. Em 1764 em Haddon Ocidental, Northants, 2.000 acres de terra foram cercados. Os nativos, como sempre, fizeram os protestos formais usuais, os quais foram ignorados. Então eles decidiram jogar futebol nas terras cercadas. “Pouco depois da partida começar, o jogo degenerou em uma multidão abertamente política que arrancou e queimou as cercas. Cavaleiros, especialmente alistados em Northampton, não puderam fazer nada face a tal resistência e os danos foram da ordem de £1.500”.[29]

        Em 1768 um cercamento no pântano Holland, Lincolnshire, disparou nada menos do que três jogos de futebol políticos em apenas um mês. “No 1º de julho, os insurgentes, consistindo de por volta de 200 homens, jogaram a bola dentro do pântano e jogaram por cerca de duas horas, quando tropas de cavaleiros, alguns nobres de Boston e quatro delegados, tendo preso quatro ou cinco insurgentes, os levaram à cadeia de Spalding. Dr. Shaw, de Wyberton, libertou três mulheres insurgentes e os homens foram liberados sob fiança. No dia 15 outra bola foi jogada e ninguém se opôs... No dia 29 outra bola foi jogada sem oposição”.[30]

 

Sonhar Acordado é Uma Merda

        O detalhe mais interessante desses exemplos é a forma pela qual um jogo tradicional estava sendo usado para reafirmar direitos tradicionais. E é nesta interseção entre costumes e protesto que a verdadeira relevância política do futebol pode provavelmente ser achada. Embora as várias tentativas de suprimir o futebol tenham tido razões práticas superficiais – como redirecionar a população para um esporte militarmente útil como arco-e-flecha ou impedir que janelas fossem quebradas – existiam forças mais profundas agindo também. Uma destas era que a elite dominante possuía um medo constante da energia e poder potencial da massa de pessoas comuns, não importa se esse poder era direcionado a fins “políticos” ou não. Um nobre inglês é citado como tendo reclamado em 1892: “As classes média baixa e operária podem ser dividas em dois pedaços: Fabianos (socialistas reformistas) e futebolistas, e marque minhas palavras, é difícil dizer qual dos dois incomoda mais aos outros membros da sociedade”.[31] Walwin comenta: “Durante esses séculos, o futebol era o jogo das pessoas comuns; o jogo reflete as vidas daqueles que o jogam. Similarmente, as reações hostis das altas classes refletem suas atitudes em relação ao populacho”.[32] Neste contexto, não surpreende que o futebol tenha sido a única tradição popular hostilizada pelas classes dominantes. No século 19 praticamente todos os outros costumes estavam ameaçados de extinção. O pesquisador de folclore Bob Bushaway escreve: “A supressão dos elementos vulgares e ofensivos dos costumes era visto como positivo e necessário para a manutenção da santidade do poder e da propriedade. O expurgo e remodelagem dos costumes populares durante o período Vitoriano era o detalhe central dessa imagem”.[33] Ele adiciona que “a interdição de lugares tradicionais” era um aspecto chave dessa supressão, em particular através do cercamento. No coração do conflito estava a diferença entre o costume e a lei e os esforços da autoridade de substituir o primeiro pela segunda. Isto não era um fenômeno novo mesmo naquela época – o bispo e reformador radical João de Antióquia declarou já no século IV que “Os escravos são mais adequadamente governados pela lei, e os homens livres pelos costumes”.[34]

        

O futebol de várzea, literalmente. Shrove Tuesday, 
em Ashbourne, 1921.

        Oliver Goldsmith também defendeu o costume acima da lei no século 18, assim como John Stuart Mill em 1848. O último escreveu: “Quanto mais longe olhamos no passado, mais vemos todas as transações e relacionamentos sob a influência de costumes fixos. A razão é evidente. O costume é o mais poderoso protetor dos fracos contra os fortes; seu único protetor quando não há leis de governo que se adequem a esse objetivo”.[35] Bushaway nota: “A linguagem do costume era compreendida pela comunidade, que indicava quais ações eram toleradas ou não, e agia como veículo para defender a vontade coletiva”. E esses costumes simplesmente não podiam ser aceitos pela lei, resultando na redefinição do costume como crime”.[36]

        E.P. Thompson produziu algumas evidências fascinantes sobre a forma como o costume está ligado à cultura popular.[37] E o historiador radical Cristopher Hill pergunta, ao considerar as mudanças trazidas pelo cercamento de terras a partir de 1641 até o início do século 20: “Por que deveriam as classes baixas respeitar leis que defendem os direitos de propriedade contra os costumes populares nas aldeias?”[38] E ele liga a defesa da tradição e costume popular com “uma ideologia de liberdade... que remonta a Robin Hood e seus foras-da-lei”. O conceito de sociedade tradicional autogerida, guiada por costumes, também é central em algumas versões da teoria anarquista, particularmente a do Anarco-socialista Judeu-alemão Gustav Landauer (1870-1919). Ele usou a palavra 'Geist' para descrever um tipo de espírito de comunidade que era o cimento por trás de uma sociedade baseada em costumes, construída de baixo para cima. Landauer argumentava que “O estado, com sua polícia e todas suas leis e suas invenções sobre direitos de propriedade, existe para o povo como uma miserável substituição da Geist e das organizações com objetivos específicos; e agora o povo supostamente existe para o bem do Estado, que finge ser um tipo de estrutura ideal e um objetivo em si mesmo, uma Geist... Existe uma comunidade paralela ao Estado, não apenas como a soma de átomos individuais isolados, mas uma solidariedade orgânica, consistindo de grupos altamente diferenciados... Nós ainda sabemos pouco ou nada sobre essa estrutura supraindividual que é grávida de Geist, mas um dia se saberá que o socialismo não é a invenção de algo novo, mas a descoberta de algo que esteve presente e cresceu dentro da sociedade”.[39]

        Landauer via essa Geist como representando a liberdade. Já que não temos liberdade na sociedade atual, o que gera a Geist, ou o espírito comunitário, é automaticamente uma força revolucionária. Esta era certamente uma conclusão compartilhada por aqueles que se esforçaram tanto para eliminar o futebol e os outros costumes que ameaçavam seu sistema pelas bases.

 


Uma Introdução ao Futebol Trilateral

        Acredita-se que a primeira pessoa a imaginar um futebol de três lados tenha sido Asger Jorn, que o via como um meio de ilustrar sua noção de triatlética – uma superação trinitária da estrutura binária da dialética. Nós ainda não conseguimos descobrir se ele chegou a organizar jogos de verdade. Antes que a Sociedade Psicogeográfica de Londres organizasse o seu primeiro jogo na Escola de Verão Anarquista de Glasgow em 1993, existe pouca evidência de que qualquer jogo tenha tomado lugar.

        Existe, é claro, o boato de que Luther Blissett tenha organizado uma liga informal de clubes juvenis que jogaram o futebol trilateral durante a sua passagem por Watford no início dos anos 80. Infelizmente, nossa pesquisa não achou nenhuma evidência que confirmasse isso. Entretanto, o nome de Blissett provavelmente ficará firmemente ligado à versão trilateral do jogo, mesmo que de forma apócrifa.

        A chave do jogo é que ele não provoca agressão ou competitividade. Diferente do futebol de dois lados, nenhum time conta o número de gols marcados. Entretanto, eles contam quantos gols tomaram, e o time vencedor é aquele que toma menos gols. O jogo desconstrói a estrutura bipolar mítica do futebol convencional, onde a batalha entre nós-e-eles mediada pelo juiz imita a maneira como a mídia e o Estado fingem ser “neutros” na luta de classes. Da mesma forma, não existe o drama psicosexual do penetrador e do penetrado – as possibilidades se encontram enormemente expandidas!

        O campo é hexagonal; cada time recebe dois lados opostos, por razões burocráticas, caso a bola seja chutada para fora do campo. O lado vazio é chamado de frente. O lado contendo o orifício é chamado de traseiro, e o orifício é chamado de gol. Caso a bola seja lançada através do orifício de algum time, considera-se que o time deu o gol – portanto, de forma emblemática, isto perpetua as técnicas homofóbicas de retenção anal do futebol convencional, onde a tensão homo-erótica é aumentada apenas para ser sublimada e reprimida.

        A apropriação triatlética dessa técnica dissolve a bipolaridade homoerótica/homofóbica, porque um ataque bem sucedido provavelmente dependerá da colaboração com o terceiro time. Isto deve superar a grande resistência à participação ativa das mulheres no futebol.

        Entretanto a penetração da defesa por dois times opositores impõe à defesa a tarefa de contrabalançar sua desvantagem semeando a discórdia numa aliança que pode ser apenas temporária. Isto será alcançado através da exortação, linguagem corporal, e da habilidade de dominar a bola e os jogadores numa posição tal que um dos times oponentes se dê conta de que seus interesses estarão melhor servidos se pararem o ataque e se aliarem ao time que se defende.

        Mantendo-se em mente que tal decisão não será necessariamente imediata, um time pode facilmente se cindir entre duas alianças. Tal situação abre então a possibilidade de que seus inimigos se unam, tomando o máximo proveito dessa confusão. O futebol trilateral é um jogo de habilidade, persuasão e psicogeografia. O semicírculo em volta do gol funciona como uma área de pênalti e pode se tornar necessário o uso de algum tipo de regra colateral que ainda precisa ser inventada. 

pela Associação dos Astronautas Autônomos (Seção de Londres Oriental), Box 15, 138 Kingsland High Street, London E8 2NS, Reino Unido. 
Email: aaa@unpopular.demon.co.uk

 

Fomos Roubados

       É evidente que a supressão pura e simples não foi o único método usado para eliminar a fidelidade aos costumes que estavam barrando a marcha do Progresso. Escreve Bushaway: “No final da era Hanoveriana e Vitoriana, as classes proprietárias tentaram se apropriar do costume popular e dos direitos tradicionais dos pobres, em parte suprimindo e em parte se apoderando e transformando-o”.[40] Da mesma maneira que as canções infantis tiveram todas as suas letras mudadas para agradar à sociedade Vitoriana, o futebol também foi reinventado para a idade moderna. Pode-se dizer que a sua absorção pelo status quo começou tão cedo quanto o ano de 1615, quando James I assistiu uma partida de futebol em Wiltshire ou em 1681 quando Charles II assistiu uma outra entre membros da Casa Real e os servos do Duque de Albermarle.[41]

O poder da torcida: Abril 1996, torcedores do Brighton e do Hove Albion ocupam o campo de Goldstone. Quando o infame diretor Bill Archer venceu o antigo campo história das Gaivotas por uma balela, suas falcatruas deixaram o clube sem teto e os torcedores tomaram a justiça em suas próprias mãos, começando um movimento de protesto para expulsar Archer e salvar seu clube. Sábado, 27 de abril, era pra ser a última partida jogada no Goldstone. Mas, aos 15 minutos do primeiro tempo, milhares de torcedores invadiram o campo, os torcedores do York e do Brighton trocando camisas e se unindo no coro "Põe o conselho diretor na rua".

        Mas os atuais clubes de futebol na verdade nasceram do “cristianismo musculososo” da Inglaterra Vitoriana, quando as paróquias urbanas e grandes escolas públicas passaram a ver “o futebol como um meio saudável para canalizar a agressão e ensinar as importantes lições do espírito de equipe e competição”.[42] É claro que o costume oral teve que ser substituído por leis escritas e em 1848 as Regras de Cambridge foram escritas na Universidade de Cambridge por ex-alunos de Eton, Harrow, Shrewsbury e Winchester (escolas tradicionais da aristocracia inglesa). Em 1862 uma lista de dez regras foi sugerida por J.C. Thring da faculdade de Uppingham, e em 1888 uma liga de futebol profissional foi criada.[43] A partir daí, foi tudo ladeira abaixo. Os proletários passaram de participantes a espectadores passivos e isto foi o fim da ameaça que o futebol representava ao sistema. Certo? Mais ou menos. O futebol foi um costume popular cujo espírito se recusou a morrer facilmente e não é que a participação tenha de fato morrido, mas ela foi transferida para a arquibancada. É um mito a crença de que as multidões de torcedores era composta de homens de meia-idade garbosos e comportados vestindo chapéus até meados dos anos 60. Só para dar um exemplo, o termo “hooligan” foi inventado em 1898. E pesquisadores na Universidade de Leincester dizem que mais de 4.000 incidentes de hooliganismo ocorreram em partidas de futebol entre 1894 e 1914, particularmente entre 1894 e 1900 e de 1908 a 1914. Eles sugerem uma ligação entre essas explosões de violência futebolística e a presença de gangues juvenis na multidão.[44] Mas não foi apenas a estranha invasão do campo ou a ocorrência de brigas que tornaram o ato de assistir uma partida uma continuação natural do jogar futebol tradicional. As classes superiores também se deram conta disso. É por isso que, desde o começo, eles condenaram o culto bárbaro do “espectadorismo”.

        Escreve o historiador do esporte Richard Holt: “Era perfeitamente aceitável que jogadores entusiasmados assistissem a outros jogadores jogar por amor ao esporte, mas era algo bem diferente milhares de jovens e homens proletários gritassem e xingassem, empurrando seu time à vitória por bem ou por mal. Longe de ser “racional”, isto não era nada além de fanatismo irrefletido, partidarismo arbitrário e obstinado, sem sentido, moralidade, ou autocomedimento. Pouco diferente de fato das multidões que espetavam touros ou carregavam a bexiga de um porco de um extremo a outro da cidade. Foi para isso que os jogos antigos foram revisados e refinados nas melhores escolas do país?”[45]

        Entretanto, apesar dessa continuidade de espírito, mudanças no mundo exterior significaram que as implicações políticas do fanatismo futebolístico mudaram durante o curso do século 20. A lealdade apaixonada à localidade permaneceu, mas a localidade se tornou a cidade mais próxima com a qual os torcedores urbanos ou suburbanos se identificavam, e não mais a comunidade na qual viviam. Diz Holt: “Esses habitantes das grandes cidades necessitavam de uma expressão cultural para o seu urbanismo que ia além dos laços sangüíneos e de localidade. Uma necessidade de “pertencer”, bem como a excitação é o que parece mais evidente no comportamento de multidões de torcedores”.[46] E o que poderia ser uma melhor extensão dessa identidade-ersatz industrializada do que patriotismo chauvinista, encorajado pelo aparecimento das partidas entre países? A obstinação e cabeça-quente que um dia serviu para defender tradições e autonomia locais era agora desviada para uma ligação afetiva com grandes organizações autoritárias – os clubes – e com Estados nacionais. Não há muito potencial radical nisso, e não é de surpreender nessas circunstâncias que as arquibancadas se tornassem úteis áreas de recrutamento para neofascistas do estilo do National Front. Existia algo mais aqui do que apenas a dinâmica das multidões futebolísticas – a alienação de uma esquerda estagnante cada vez mais distanciada da classe operária também foi um fator que contribuiu.

        Talvez fosse a invasão dos valores liberais, politicamente corretos e da classe média no que passou a ser conhecido como a “esquerda” política (a Nova Esquerda de hoje em dia?) que os levou a se juntar a centenária condenação do futebol como delinqüente, grosseiro, inútil, etc. Porque por trás de todo o escândalo moral com a violência, invasão de campo e palavras de ordem obscenas, estava claro que a objeção real às multidões de futeboleiros era que estas eram compostas predominantemente por proletários, os quais não obedeciam às leis impostas pela nata da sociedade. Escreve Holt: “Os ideais da classe média de “jogar conforme as regras” sempre foram estranhas à rude cultura proletária. Jovens urbanos desenraizados construíram sobre esta atitude física irrestrita observada nos jogos e a transformaram em uma subcultura diferente, mais agressiva e organizada”.

        Contando uma anedota sobre torcedores que colocaram merda dentro dos sapatos de um torcedor rival, Holt liga este aspecto à tradição ancestral de desobedecer as regras no futebol. “Antiguidades desse tipo têm sido a substância do carnaval através da Europa ocidental por séculos. Na Paris do século 19 jovens foliões derretiam chocolate e jogavam nos horrorizados pedestres – que acreditavam ter sido acertados com bosta”.[47] Nos anos de 1980, particularmente após a tragédia de Heysel em 1985,[48] parecia que Thatcher iria simplesmente banir essa horrível atividade proletária e fazer com que os americanos bombardeassem o estádio de Wembley. Mas ao contrário, o bom senso capitalista prevaleceu e a versão industrializada do futebol foi absorvida pelo consumismo do final do século 20. O desastre de Hillsborough em 1989,[49] o qual deveria ser uma demonstração clara da maneira como os torcedores são tratados pela polícia e pelos clubes, foi usado como uma desculpa para tentar matar a cultura de torcida com a imposição de estádios sem geral, mas apenas cadeiras numeradas, em todos os jogos da primeira divisão. Ao mesmo tempo o futebol sofreu mais uma chuva de merda quando os torcedores endinheirados da cidade formaram fila em frente às roletas metafóricas para lucrar com a mais nova lealdade à logomarca que é torcer para um time. British Sky Broadcasting agora possui ações da Manchester United, Chelsea, Leeds, Manchester City e Sunderland. Granada possui ações do Liverpool e a companhia de TV a cabo NTL possui ações da Aston Villa e Newcastle.[50]

 


Futebol para os Jogadores

Na Paris insurgente de maio de 68, quando milhões de trabalhadores entraram em greve, os estudantes ocuparam as universidades, o presidente fugiu do país e a França parecia à beira da revolução, os futebolistas não ficaram de fora. Futebolistas ocuparam o quartel-general da Federação de Futebol Francesa e lançaram um comunicado:

"Nós, os jogadores de futebol, pertencentes a vários clubes na região de Paris, decidimos hoje ocupar a sede da Federação Francesa de Futebol. Assim como os trabalhadores, que estão ocupando as fábricas, e os estudantes, que estão ocupando suas faculdades. Porque? 

PARA DEVOLVER AOS 600.000 JOGADORES DE FUTEBOL FRANCESES E SEUS MILHARES DE AMIGOS O QUE LHES PERTENCE: O FUTEBOL, QUE FOI ROUBADO DELES PELOS CHEFES DA FEDERAÇÃO PARA SERVIR AOS SEUS INTERESSES EGOÍSTAS DE ENRIQUECIMENTO.

Pelos termos do artigo 1 do Estatuto da Federação (de acordo com a lei, uma associação sem fins lucrativos), os chefes da Federação dedicam-se ao “desenvolvimento do futebol”. Nós os acusamos de trabalharem contra o futebol e de terem acelerado o seu declínio ao submetê-lo à tutela de um governo que é por sua própria natureza hostil ao esporte popular.

1º ) ELES ACEITARAM UMA LIMITAÇÃO DE OITO MESES PARA A TEMPORADA DE FUTEBOL e o proibiram durante a melhor época do ano, e fizeram vista grossa ao fechamento de campos de futebol, à recusa de viagens coletivas, e à recusa de garantias de seguro contra acidente durante o período “proibido”.

2º ) ELES NÃO FIZERAM NADA PARA EVITAR O FECHAMENTO DE VÁRIOS CAMPOS DE FUTEBOL nem tentaram criar novos. O que torna a prática do futebol impossível para centenas de milhares de jovens. Nem fizeram nada para permitir que crianças pudessem jogar futebol em quadras.

3º ) ELES PRETENDEM CRIAR A LICENSA B, que, por praticamente proibir transferências (exceto quando são do interesse dos grandes clubes), constituem uma afronta intolerável à liberdade dos jogadores e aos interesses dos clubes pequenos.

4º ) ATRAVÉS DA VOZ DE DUGAUGUEZ, ELES INSULTARAM TODOS OS JOGADORES FRANCESES a respeito de suas habilidades físicas, técnicas e mentais.

5º ) ELES ZOMBAM DA DIGNIDADE HUMANA DOS MELHORES JOGADORES ENTRE NÓS, os profissionais, ao manter o contrato escravizante denunciado por Kopa, cuja ilegalidade foi reconhecida há um ano atrás por Sadoul, presidente do Conselho de Diretores.

6º ) ELES DESPUDORADAMENTE CONCENTRAM NAS MÃOS DE UMA INSIGNIFICANTE MINORIA OS LUCROS SUBSTANCIAIS que nós lhes damos através de nossas inscrições, e através dos ingressos dos quais eles retiram percentagens antecipadamente, isto quanto não levam tudo. Chiarisoli, presidente da Federação e Sadoul, presidente do Conselho, lavam dinheiro ilegal através de contas que escapam ao controle dos jogadores. Bolougne, o chefe da máfia dos treinadores, reserva os empregos mais lucrativos para seus amigos (um milhão de francos ou mais por mês). Dugauguez está contratado como gerente da Seleção Francesa em regime de dedicação exclusiva (600.000 francos por mês), e mesmo assim manteve seus empregos como gerente de negócios do Sedan Draperies e treinador do Sedan. E para fechar o assunto há o Pierre Delaunay, que deve seu cargo de Secretário Geral da Federação à herança (como um Luizinho XVI), porque ele foi nomeado pelo seu pai, titular prévio do cargo!

É para colocar um fim a essas práticas inacreditáveis que nós estamos ocupando a propriedade dos 600.000 jogadores franceses, que se tornou o bastião dos inimigos e exploradores do futebol.

Agora depende de vocês: jogadores, treinadores, gerentes de clubes pequenos, incontáveis amigos e fãs do futebol, estudantes e trabalhadores – para preservar a qualidade do seu esporte, juntem-se a nós para: EXIGIR O FIM da limitação arbitrária da temporada futebolística; da licensa B e do contrato escravizante dos jogadores profissionais.

EXIJA A DEMISSÃO IMEDIATA (por meio de um referendo dos 600.000 jogadores, controlado pelos mesmos) dos exploradores do futebol e dos inimigos do jogadores.

LIBERTE O FUTEBOL DA TUTELA DO DINHEIRO DOS PATÉTICOS CHEFETES que estão na raiz da decadência do futebol. E exija do Estado os subsídios que este garante a todos os outros esportes, e os quais os chefes da Federação jamais exigiram.

Para que o futebol permaneça seu, nós lhes convocamos para que VENHAM SEM DEMORA à sede da Federação que novamente se tornou SUA CASA, na Avenida d'Iena, 60, Paris.

Unidos, nós faremos que o futebol novamente seja o que jamais deveria ter deixado de ser: o esporte da alegria, o esporte do mundo de amanhã que todos os trabalhadores já começaram a construir. TODOS À AVENIDA D'IENA, 60!"

- Comitê de Ação dos Jogadores de Futebol

 De: Enragés e Situacionistas no Movimento de Ocupação, Maio de '68, por René Viénet (Autonomedia/Rebel Press, 1992)

 

Eles acham que acabou...

        O jogo continua vivo, é claro, e ainda mais popular do que antes. Mas a cada temporada os torcedores vão se tornando reles consumidores de apenas mais um produto de lazer. Nem sempre você tem dinheiro para ir às partidas. Você não pode ficar de pé. Você não pode se sentar com o grupo que quiser, porque as cadeiras são numeradas de forma arbitrária. Não é tão ruim na segundona, mas os clubes pequenos que estão de fora da babilônia podem muito bem acabar no paredão nos próximos anos. Será que este é o fim do espírito do futebol neste país? O que pode ser feito para salvar o jogo das garras do capitalismo global? Houve várias tentativas de fomentar verdadeiras rebeliões em campos de futebol. O poder da torcida, aparelhado pelo movimento independente dos fanzines, manteve a bandeira da revolta tremulando e a influência da extrema direita foi combatida eficazmente por grupos antifascistas. Mas parece que a batalha está sendo perdida. Mesmo a revista anarquista Animal não estava muito otimista em seu número especial sobre o futebol em 1998, suspirando: “Será que o máximo que os torcedores podem esperar é se unir a torcidas independentes, argumentar bastante e então atacar os donos do dinheiro quando as oportunidades se apresentarem?”. [51]

        Talvez a resposta seja esquecer as cidadelas capitalistas do futebol profissional moderno e voltar às raízes do futebol para buscar inspiração. Torneios de futebol society já são um aspecto comum de reuniões radicais como o 1º de maio de 2000, o Easton Cowboys de Bristol forjaram ligações revolucionárias internacionais ao viajar para Chiapas para jogar futebol com os Zapatistas e peladas de rua jogadas por multidões ao estilo do Reclaim the Streets também já aconteceram. Junto com isso nós também estaríamos bem se déssemos uma olhada na forma como o futebol, e os costumes como um todo, podem motivar e devolver poder às comunidades.

 

Só existe Wahn Gustav Landauer

        O que quer que você pense sobre linhas de energia (leylines), a idéia colocada pelos Bords de que o futebol cria energia tem tudo a ver. Energia. Isto é com certeza o que precisamos de forma a fomentar e encorajar uma real rebelião contra as forças sombrias do industrialismo, e não mais análises áridas e acordos mal-passados. Temos que achar o catalista para libertar a energia ancestral e cru do povo, o tipo de poder coletivo que dá o frio na espinha, e que pode, apesar de tudo, ser experimentado nas partidas de futebol. Era sobre isso que Landauer falava como a extensão dinâmica de sua Geist, ou espírito de comunidade, no que ele chamou Wahn. Ele escreveu: “Wahn não é apenas cada objetivo, cada ideal, cada crença no sentido da vida e do mundo: Wahn é cada bandeira seguida pela humanidade, cada cadência de tambor que leva a humanidade ao perigo; cada aliança que une a humanidade e cria da soma dos indivíduos uma nova estrutura, um organismo. Wahn é a maior coisa que a humanidade possui; existe sempre algo de amor nisto: amor é Geist e Geist é amor: e amor e Geist são Wahn”.[52]

        E quando nós tivermos energizados nosso Wahn e derrotados a pobreza, o progresso e o lucro juntos, talvez nós teremos mais uma vez espaço e tempo suficientes para um bom e relaxante jogo de futebol.

 

Traduzido por Sindicato do Rock. Esta tradução está em domínio público. 
(http://www.eco-action.org/dod/no9/football.htm)

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Notas

1) Desmond Morris - Manwatching: A Field Guide to Human Behaviour (Triad/Granada, London, 1978)

2) Jonathan Rice - Curiosities of Football (Pavilion, London, 1996)

3) Op. Cit. 2.

4) James Walwin - The People's Game: The Social History of British Football (Allen Lane, London, 1975)

5) Op. Cit. 2.

6) Quentin Cooper and Paul Sullivan - Maypoles, Martyrs and Mayhem: 366 Days of British Customs, Myths and Eccentricities (Bloomsbury, London, 1994)

7) Janet and Colin Bord - Earth Rites: Fertility Practices in Pre-Industrial Britain (Granada, London, 1982)

8) Op. Cit. 6.

9) Op. Cit. 4.

10) Ibid.

11) Op. Cit. 2.

12) Ibid.

13) Ibid.

14) Ibid.

15) Op. Cit. 4.

16) Op. Cit. 2.

17) Op. Cit. 4.

18) Ibid.

19) Ibid.

20) Ibid.

21) Op. Cit. 2.

22) Op. Cit. 4.

23) Ibid.

24) Ibid.

25) (Quoted in) Ibid.

26) Bob Bushaway - By Rite: Custom, Ceremony and Community in England 1700-1880 (Junction, London, 1982) 27) Dave Russell - Football and the English: A Social History of Association Football in England, 1863-1995 (Carnegie, Preston, 1997)

28) Op. Cit. 4.

29) Ibid.

30) Ibid.

31) Ibid.

32) Ibid.

33) Op. Cit. 26.

34) Ibid.

35) John Stuart Mill - Principles of Political Economy (Toronto, 1965)

36) Op. Cit. 26.

37) Notably in Customs in Common (Merlin, 1991)

38) Christopher Hill - Liberty Against the Law: Some Seventeen Century Controversies (Allen Lane, London, 1996)

39) Aufruf zum Sozialismus (Berlin, 1919), quoted by Charles B Maurer in Call to Revolution: The Mystical Anarchism of Gustav Landauer (Wayne State University Press, Detroit, 1971)

40) Op. Cit. 26.

41) Op. Cit. 2.

42) Ibid.

43) Ibid.

44) Op. Cit. 27.

45) Richard Holt - Sport and the British: A Modern History (Clarendon, Oxford, 1989)

46) Ibid.

47) Ibid.

48) Trinta e nove pessoas morreram em 29 de maio de 1985 durante a final da copa dos campeões da Europa entre o Liverpool (Inglês) e o Juventus (Italiano) no estádio de Heysel na Bélgica. Torcedores do Liverpool tentaram atacar os torcedores do Juventus, causando pânico. Na confusão uma parede desabou soterrando e matando várias pessoas.

49) Em 1989 uma semifinal entre o Liverpool e o Nottingham custou a vida de 96 torcedores do Liverpool, esmagados pela multidão, fato causado por negligência policial.

50) The Guardian, March 4, 2000.

51) Issue 2. PO Box 467, London E8 3QX, UK.

52) Beginnen: Aufsaetze uber Sozialismus, edited by Martin Buber (Cologne, 1924), Op. Cit. 39.