Uma leitura sócio-cultural do futebol

 

               

"Por sorte ainda aparece nos gramados, ainda que seja muito de vez em quando, algum descarado cara-de-pau que sai não se sabe de onde e comete o disparate de desmoralizar toda a equipe rival, e ao juiz, e ao público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança à aventura proibida da liberdade."
(Eduardo Galeano)

 
Definitivamente, alienação, poder político e interesses mercadológicos são sinônimos de futebol.

Senão vejamos. Todos sabem sobre o tricampeonato, na Copa do Mundo de 1970, utilizado pela Ditadura Civil-Militar como propaganda de um País que “ia pra frente”, como já fora utilizado por Vargas como símbolo da unidade nacional durante o Estado Novo.
 
Todos sabem como, no lugar do debate político e social, consciente e cidadão, o futebol toma horas entre os amigos nos bares e casas, com discussões apaixonadas, desgastantes e infrutíferas sobre o gol legítimo invalidado, o pênalti mal marcado, o impedimento não visto pelo juiz. Outro tanto da discussão se resume aos comentários risíveis e redundantes sobre imagens claras que são passadas e reprisadas, com opiniões banais de “especialistas”, como se o telespectador não tivesse condições de ver por si o que é transparente na tela da televisão.

Todos sabem que o futebol foi transformado em uma das mercadorias mais rentáveis. Em época de Copa do Mundo isto é mais visível ainda, a ponto de que o risco de nossa Seleção não passar para a próxima fase, envolve investimentos de bilhões. O Futebol nos decepciona quando soubemos que alguns são convocados para esta ou aquela seleção para valorizar seu passe, enquanto outros são mantidos no time para aumentar o valor de venda, muitas vezes tendo por trás dirigentes que empresariam suas carreiras.

E nós torcedores, fanáticos muitas vezes, que chegamos a matar pelas cores de nossos clubes ou Seleção, funcionamos como marionetes de interesses subterrâneos do futebol.

Definitivamente, futebol é sinônimo de alienação e de manipulação, tanto da mídia como da política. Definitivamente?

Como, então, explicar a paixão pelo esporte de milhões e milhões de brasileiros? Como entender a permanência da adoração que não resulta em violência, a ponto de o futebol ser encarado como símbolo de uma identidade nacional, da “pátria de chuteiras”, espécie de síntese de nossa formação sócio-cultural? (1)

Independente de nossa vontade, em uma sociedade onde o capital transforma tudo em mercadoria, inclusive as pessoas, não poderia ser diferente com o futebol.

Compreender isto, talvez, seja o primeiro passo, para que aqueles que “vivem do futebol” passem a questionar o sistema que os cerca. Não o futebol em si. Esta, como outras expressões históricas deverá ter maior permanência que as sociedades que o criaram.

A instrumentalização do esporte não explica sozinha esta forma contemporânea de relação social e cultural que ganhou milhões de adeptos em todo o mundo, em particular no Brasil. A música do Skank, especialmente para quem já foi a um estádio, sabe expressar muito bem a coisa linda que é uma partida de futebol.

Paulo Mendes Campos, ao cumprir o dever e não driblar o seu destino, que era amar o futebol, registrou em verso esta sina: amou-o. Sem deixar de amá-lo, o futebol pode ser entendido, analisado, julgado e ser visto além das simples oposições mecânicas entre alienação versus manipulação, frutos de leituras importantes, mas basicamente sectárias. Deve ser visto também como “um domínio em que conflitos sociais e dilemas nacionais são postos em evidência”. (2)

Nelson Rodrigues disse que nossa literatura ignorava o futebol e nossos escritores não sabiam cobrar um reles lateral. Pois bem, aos poucos a literatura foi abandonando esta ignorância. Os historiadores também.

Desde a tradição da história social inglesa, o futebol entrou na seara das pesquisas. Visto como um meio de disciplinarização e dominação sobre os grupos excluídos, mas também como expressão cultural dos trabalhadores fora da fábrica, o futebol ganhou o espaço acadêmico e já é tema do ensino nos bancos universitários e escolares. Eric Hobsbawm nos mostrou que, na Inglaterra, desde os últimos anos da década de 1870, o futebol já possuía uma modesta vida subterrânea como esporte para o espectador operário, se emancipando do patrocínio das classes média e alta na década de 1880, tornando-se cada vez mais parte do universo proletário, tanto para jogadores como para torcedores (3) .Assim acontecerá mais tarde no Brasil.

Na formação social brasileira, nasceu entre filhos de imigrantes e das elites, as quais impediram durante algum tempo os campeonatos entre as ligas dos bairros requintados e aqueles onde residiam pobres e operários. O Rio de Janeiro foi um exemplo. Mas a pressão social, através do futebol, rompeu o racismo ilustrado no “pó de arroz” dos jogadores negros, transformando o campeonato carioca de futebol, na década de 1920, em um único torneio, independente da origem social e étnica dos seus jogadores (4). Quantos clubes “ferroviários” nasceram perto dos trilhos de trem pelo Brasil, como forma de ampliação do mundo do trabalho?

Sob o ponto de vista social, o futebol é o sonho dos garotos pobres da periferia para a ascensão social. Uma minoria chega lá e a Seleção é o maior exemplo. Seus craques viram ídolos e referência de vida para milhares de meninos que, diante da desigualdade, mas estimulados pelo individualismo liberal, vêem que seu talento no futebol é a saída para uma vida de fama e dinheiro. Este imaginário tem sido mais forte que qualquer debate intelectual e acadêmico sobre o tema.

Do ponto de vista econômico, mesmo que com sua lógica, o futebol gera emprego e renda. Precisa ser socializado e ampliado, pois por eles muitos garotos e garotas poderão sair da situação de rua. Isto vai além dos puros “interesses do mercado”.

Do ponto de vista cultural, o futebol tem sido a marca de sociabilidades que vão além de uma homogênea e artificial “identidade nacional”. Como identidade popular, manifesta nos milhões de adeptos, em especial entre os mais explorados da população, que deixam vazar por ele o sentimento de que alguma coisa pode unir os brasileiros, o futebol pode ser compreendido de forma mais ampla. Assim como a música para Graça Aranha, podemos argumentar que o futebol tornou-se manifestação de sensibilidade coletiva dos brasileiros. Podemos, então, questionar como ilegítima esta expressão cultural, assim como o samba?

Terminantemente, o problema não está no futebol em si. Sabemos que “a história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever”, como já disse Eduardo Galeano, ao comentar que o esporte se fez indústria, o jogo foi convertido em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, ao mesmo tempo em que a tecnocracia do esporte profissional foi impondo velocidade e muita força que renuncia à alegria, atrofiando a fantasia e proibindo a ousadia. (5)

E, mesmo assim, continuamos apaixonados e querendo cada vez mais futebol em nosso País economicamente dependente e culturalmente desigual, como queremos comida, bebida, diversão e arte.

Um País em que a oposição, cantada nos versos de Gabriel O Pensador, entre o Brazuca bom de bola, que deita e rola, e o Zé Batalha que só trabalha, que só se esfola, tenha fim. Sendo o futebol parte de uma redenção coletiva rumo a um Brasil socialmente justo, independente de nossas elites e de governos comprometidos com elas.



Notas

Este artigo, aqui ligeiramente modificado, foi publicado originalmente no Caderno Mix-Idéias do Diário de Santa Maria, na edição de 1º jun. 2006, p. 14-5, com o título “Um drible na alienação”.


 

1- “Pátria de Chuteiras” é uma expressão cunhada pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, irmão de Mário Rodrigues Filho (aquele que deu nome ao Estádio do Maracanã) e autor, entre outros, de uma obra fundamental sobre o futebol brasileiro: O negro no futebol brasileiro.
 
2- Sobre isso, cf. o artigo “Classe, etnicidade e cor na formação do futebol brasileiro” de José Sérgio Leite Lopes, In. BATALHA, Cláudio; SILVA, Fernando; FORTES, Alexandre (org.). Culturas de classe: identidade e diversidade na formação do operariado. Campinas: Unicamp, 2004, p. 121-63.
 
3- Ver sobre isso o artigo “O fazer-se da classe operária, 1870-1914”, In. Pessoas extraordinárias: resistência, rebelião e jazz. São Paulo: Paz e Terra, 1998, p. 91-114.
 
4-Um estudo aprofundado sobre este tema pode ser visto em PEREIRA, Leonardo. Footbollmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. Ver também o artigo “Gols de letra” de Bernardo de Hollanda, In. Nossa História, ano 1, nº 6, abr. de 2004, p. 45-9. Ver também a Revista  de História da Biblioteca Nacional, ano 1, nº 7, jan. 2006, com dossiê sobre o futebol, com artigos de Leonardo Pereira, Eduardo Galeano, Armando Nogueira, João de Almeida, Maurício Santoro e entrevista de Roberto DaMatta.
 
5-Talvez aqui esteja uma das razões de nossa seleção ter perdido para a França, adiando o hexacampeonato. Um futebol burocrático, sem brilho, amarrado a um esquema tático e a uma escalação que salientam outros interesses que não os exclusivos do futebol. Talvez os franceses não fujam também dos interesses subterrâneos que gerenciam o futebol. Porém, fizeram isto com uma aula de futebol e com um show de Zidane. De Eduardo Galeano, ver a sua crônica “O futebol”.

 

 

Diorge Alceno Konrad
Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP