VIOLÊNCIA ENRAIZADA: As Torcidas Organizadas no contexto urbano brasileiro

 

                É de extrema importância pensarmos de que forma ocorreu o processo de popularização do futebol na sociedade brasileira para entendermos, também, o atual fenômeno de adesão em massa deste esporte no Brasil e as questões que dizem respeito às Torcidas Organizadas. Através de uma compreensão do processo histórico, ou seja, de como se deu a difusão do futebol na sociedade brasileira, podemos começar a entender como se inicia um fenômeno o qual, atualmente, é caracterizado por sua enorme capacidade de mobilizar as pessoas. Não podemos refletir sobre as Torcidas Organizadas no Brasil, se antes não entendermos como se deu às relações futebolísticas no cotidiano dos brasileiros em relação à adesão deste esporte, como o Estado brasileiro vai estruturando-se e qual a realidade do nosso contexto urbano. Pois, entendemos a violência como um fenômeno complexo e que não pode ser conceituado de forma normativa e positiva como muitos apresentam e pensam as Torcidas Organizadas. Entendemos o aspecto do conflito como algo inerente e constitutivo das relações em sociedade, onde o dinamismo das práticas culturais é um aspecto próprio deste movimento. Segundo Simmel,

Um grupo absolutamente centrípeto e harmonioso, uma visão pura não só é empiricamente irreal como não poderia mostrar um processo de vida real. A sociedade para alcançar uma determinada configuração, precisa de quantidades proporcionais de harmonia e desarmonia, de associação e competição, de tendências favoráveis e desfavoráveis. A oposição não é só um meio de preservar a relação, mas uma das funções concretas que verdadeiramente a constituem. (SIMMEL, 1983: 124; 127). 

Sabemos que a princípio, logo quando chegou ao Brasil, o futebol era um esporte elitista, praticado somente por descendentes de ingleses pertencentes às classes ricas do país. Com passar do tempo, aquele esporte, que possuía regras facilmente aprendidas e que se praticava com pouquíssimo material, foi sendo vivenciado também pelas classes populares, e assim surge o advento do profissionalismo, assim, a partir desta realidade, o futebol no Brasil passa a ser jogado pelo mérito e não pela origem. A partir da ‘quebra’ do preconceito por parte de grandes clubes e da imensa popularidade do futebol, podemos pensar em um processo de solidificação do futebol profissional na sociedade brasileira.

As Torcidas Organizadas, enquanto agremiações institucionalizadas que surgem no final dos anos 60 e início dos anos 70, estão inseridas no universo que envolve o futebol profissional brasileiro, pois segundo Toledo (2002), o campo esportivo que envolve o futebol profissional pode ser mais bem pensado se partirmos de um recorte que diz respeito a três categorias básicas: profissionais, especialistas e torcedores. Em relação aos torcedores, Toledo nos informa que esta categoria ‘procura abranger todos que, mediados pela emoção, partilham o universo do futebol’.(TOLEDO, 2002). Assim, o futebol no Brasil pode ser pensado, também, como uma instituição que possibilita diferentes formas de manifestação e identificação em quaisquer que seja a instância social, pois:

Ao que tudo indica, como tema que transborda pra o cotidiano seus acontecimentos, mas acima de tudo suas versões, significando outros temas da vida social, o futebol apresenta-se como um mecanismo simbólico poderoso e articulador de extenso repertório de fatos. Muitas vezes sua eficácia reside nesta função de conectivo e na maneira como vincula certos acontecimentos da vida. (TOLEDO, 2002: 267 – 268).

Assim, podemos refletir sobre o quanto às relações que perpassam às instâncias do futebol profissional, no Brasil, estão repletas de disputas políticas, processos de identificação ou identidade, opiniões, sugestões e pontos de vista. Mas, para que todo este processo de ‘solidificação’ e institucionalização do futebol profissional ocorresse, foi preciso uma intensa associação do fenômeno esportivo ao ‘ movimento crescente de urbanização por que passou a cidade’. (TOLEDO, 1996). Ou seja, o futebol no Brasil é pensado como uma instituição urbana, a qual traduz o intenso processo de urbanização, refletindo suas contradições e valores como: agilidade, coletividade, espírito competitivo, dinâmica, participação etc. (TOLEDO, 1996).

Em relação às Torcidas Organizadas não podemos pensar diferente, pois as mesmas, enquanto instituição burocratizada, encontram-se ligadas intrinsecamente à realidade urbana brasileira. E a partir desta ótica, não é reflexivo isolarmos este fenômeno e pensa-lo afastado de uma realidade urbana excludente, violenta e opressora a qual as grandes cidades brasileiras possuem como característica inerente às suas relações. Muitas vezes, discursos normativos sobre a violência tendem a apresentarem as Torcidas Organizadas como algo distante de uma realidade maior que diz respeito a uma reflexão sobre o Estado brasileiro. Toledo nos apresenta uma perspectiva interessante que nos ajuda a entender o fenômeno das torcidas organizadas como um dos aspectos da ‘violência enraizada’ do meio urbano e que é expressa de diversas formas:

Concretamente, estes indivíduos vivenciam experiências comuns que não podem ser, todavia, reduzidas somente a um discurso normativo sobre a violência, expresso nos jornais como foram criadas para bater. Não obstante, a violência é um fenômeno próximo e constante entre os torcedores, sobretudo aqueles oriundos das camadas populares. Violência enraizada no meio urbano em que vivem, quer seja objetivada nas ações dos órgãos repressivos do Estado, nas relações cotidianas, nas imagens veiculada pela mídia, nas condutas autoritárias que perpassam as instituições em geral, entre as quais aquelas veiculadas mais diretamente ao futebol e que, sob este aspecto, as Torcidas Organizadas e os indivíduos que a elas convergem não estão descolados desta realidade. (TOLEDO, 1996: 32).

            Assim, como forma de pensarmos essa intensa relação do Estado brasileiro com o aspecto da violência no meio urbano, apresentamos o fenômeno conflituoso das Torcidas Organizadas, pois através do futebol, podemos perceber o quanto à violência toma grandes proporções e é manifestada e objetivada de diferentes formas, principalmente em uma sociedade que apresenta resquícios hierárquicos e autoritários. Desta forma, o futebol acaba tornando-se uma instituição a qual reflete todos os problemas inerentes à sociedade brasileira, uma vez que não podemos tomar as sociabilidades engendradas pelas Torcidas Organizadas como uma simples volta a um estado de ‘barbárie’ ou ‘anti-social’. Na verdade, percebemos o quanto esta violência entre torcedores diz respeito a uma realidade mais complexa em relação à violência que se estruturou no espaço urbano brasileiro. Devido à falta de ‘aproximação’ entre Estado e sociedade civil, acabou por estruturar-se uma verdadeira distorção da idéia de cidadania, participação política, Democracia etc.

            Para que possamos adentrar de forma mais coerente a um estudo sobre as Torcidas Organizadas, é preciso que tenhamos um conhecimento mais aprofundado das relações próprias que são estruturadas por esses grupos. Pois, através de um entendimento das particularidades de como se estabelecem os laços de sociabilidade entre esses indivíduos, de como ocorrem seus ‘ritos de passagem’, quais seus códigos de diferenciação, as formas pelas quais os mesmos se apropriam do espaço urbano etc, certamente poderemos falar com maior propriedade desta experiência coletiva do grupo delimitado e contextualizado. (MAGNANI, 1992).

 

Tarcísio Arquimedes Araújo Carneiro
Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)
Graduando do curso de Educação física pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR)